Monday, January 22, 2018

Andando pela Pauliceia Desvairada



Andando pela Pauliceia Desvairada

Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.
O ridículo é muitas vezes subjetivo.
 Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre.
Criamo-lo para vestir com ele quem fere
nosso orgulho, ignorância, esterilidade.
(Pauliceia Desvairada)

Falei com o Engenheiro Goulart e com o Ermelino Matarazzo e disse que ia tomar a Liberdade de ir até a Sé para conseguir alguma Consolação ou até alguma Luz para a Pedreira que é a vida do Paulista. No Pacaembu procurei Palmeiras que acabei não achando. Achei, porém, Paineiras no Morumbi, depois de passar pelo Paraíso sem pedir licença para a Ana Rosa. Andei também por Itaquera, mas só achei o que queria no Parque da Vitória, pois a dita cuja não estava lá. Falei com muitos santos: São Mateus, Santa Terezinha, São Domingo, Santa Ifigênia, São Lucas, São Mateus. Pedi a eles Socorro para minha Saúde. Santo Amaro, então, me falou que deveria ir até a Vila dos Remédios para encontrar o que eu queria. 
Fiquei com fome e fui pescar na Ponte Rasa lá no Rio Pequeno. Não consegui nada. Fui então rezar na Vila Oratório para conseguir comida, a não ser que eu quisesse alguns Perus, pois as Perdizes estavam muito caras tanto no Mercadão como no Mercado da Lapa.
Além de fome, senti sede e fiquei em dúvida entre a Água Fria, a Água Funda e a Água Branca. Achei melhor ir para a Água Espraiada, não sem antes fazer um Bom Retiro no Alto da Lapa, de onde se podia ter uma Bela Vista. Cheguei na Lapa de Baixo e falei Mandaqui um Limão, pois ainda vou passar pela Quarta Parada e pela Quinta da Paineira. Parei na Parada Inglesa e fiquei pensando por que tanta coisa com os ingleses – Chácara Inglesa, Morro dos Ingleses, se nós temos apenas Brás e Brasilândia.
Sem dinheiro para o Metrô, fui ao Tatuapé e, enquanto andava, me perguntava por que a gente precisa de um Moinho Velho se há um Brooklin Novo ou um Parque Popular se há um Real Parque.

É mesmo uma Pauliceia Desvairada, como dizia o Mario de Andrade. Ainda bem que, quando estiver chateado, posso ler uns trechos de Brás Bexiga e Barra Funda, do Alcântara Machado, pegar o “Trem das Onze” com Adoniran Barbosa, ou tomar um “chopps” na esquina da Ipiranga com São João.

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Thursday, January 18, 2018

A foto do fato, de fato?




A foto do fato, de fato?


O fato, de fato, aconteceu, não havia dúvida. O fato foi documentado com uma foto. Disseram, porém, que a foto não representava factualmente os fatos. Foto fraca, fato forte. Entendidos em foto refizeram a foto. Foto refeita, foto bem feita. Fotoshop. O fato é que a foto não era mais o retrato da fato, tão modificada que estava. Agora a foto que era a tal, o fato era um mero fator e dele se esqueceram. Só se falava na foto. Mas fato é fato, uma foto precisa de um fato para ser uma foto fatal e total. Mas não se podia ignorar o fato de que no final todo mundo respeitava mais a foto do que o fato. Afinal a foto você sempre vê e o fato você só vê uma vez. Só alguns veem.  Isso é um fato, um fato que nem dá para você fotografar.

Agora virou moda, falam sempre mais da foto que do fato. Os fatos, que fatos? O que importa é o documento que retrata o fato, nem que o fato não tenha acontecido.

Resumindo, meu irmão, ninguém se preocupa mais com a verdade. Todo mundo, quase todo mundo, só se preocupa com o retrato que as pessoas de poder fazem dos fatos. Essas pessoas até fazem fotos de fatos que não são fatos, só fotos. A foto fica colorida quando precisam de cor. A foto fica em branco e preto quando querem dizer que a situação está preta. Quando ainda não decidiram o que fazer do fato, a cor é, sabiamente, a sépia.

Isto é um fato. E gostaria de lembrar o fato de que desse fato não se pode tirar uma foto. Claro, se não, esse fato seria uma foto, e não um fato, conforme foi provado  pelos fatos expostos acima. É ou não é um fato?


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Tuesday, January 16, 2018

Danny Glover e as raspadinhas







Danny Glover e as raspadinhas


Sei que é uma estranha combinação, mas no final tudo vai se esclarecer. Vamos começar com Jimmy, o funcionário da concessionária de veículos. Toda noite, por volta das 8 horas, ele passava pelo 7-Eleven e pedia para a atendente conferir uma pilha de “raspadinhas”. Esse termo, sem dúvida, é o melhor para traduzir as loterias de “scratch-off” ou os “scratching-tickets” que temos por aqui.
Não era uma quantidade absurda, mas também não eram poucas. Na fila, aquela cara de impaciência de muitos, com pressa de voltar para casa ou para ir onde quer que tenham de ir. Jimmy normalmente ganhava o direito ao mesmo bilhete, às vezes um prêmio modesto, nada que pudesse mudar sua vida nem sequer por uma semana. Os resultados não impressionavam, o que me impressionava, no entanto, era a assiduidade do Jimmy. Não falhava um dia sequer. Ao saber dos resultados não mostrava nem rancor por não ter ganhado, nem decepção, talvez, no máximo, um longínquo ar de esperança misturada com resignação. Esta era a vida do Jimmy. Comprava algo no mesmo caixa para o jantar, como todos que estavam na fila e ia para casa.
Era vendedor, provavelmente vendia seus dois ou três carros e voltava para casa à noitinha. Jimmy tinha um rosto familiar e por alguns meses eu tentei descobrir por quê. Finalmente um dia decifrei a charada. Estava assistindo mais uma vez ao filme “Lethal Weapon” (“Máquina Mortífera”) e lá estava: era o próprio Danny Glover, o policial parceiro da personagem de Mel Gibson, no filme. Agora nosso título acima está explicado.
O outro mistério que era difícil de entender era o porquê daquela assiduidade. Anos a fio, todo dia comprando as tais loterias, com resultado quase nenhum? Pensei muito sobre o assunto e cheguei a uma conclusão. Todos os dias Jimmy vendia carros novos, ou seja, vendia realização de sonhos para as pessoas. Eu não sei quais eram os sonhos de Jimmy, mas sei que tinha muitos. Nem importava ganhar, importava manter a fantasia, a esperança. Jimmy havia escolhido uma forma de materializar a procura da sua. Todo dia ele comprava pedacinhos de seu devaneio...

Todos nós também, todos os dias, cada um à sua maneira, estamos “comprando”, de alguma forma, nossas “raspadinhas de sonho”...



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Saturday, January 13, 2018

Um casamento como nenhum outro

Um casamento como nenhum outro



O Armando estava lá na frente da igreja, firme, esperando pela noiva. Bonitão, elegante, olhava para a porta do templo, esperando a futura esposa chegar. Olhando para seu semblante, porém, você jamais poderia saber o que se passava em sua mente. Havia duas forças se confrontando. Uma, que poderíamos chamar “de fundo” estava comparando a vida que ia ter, de casado, com a que tinha tido até então. Como ele se relacionava com a Márcia há muito tempo, era fácil “montar” um quadro mental do futuro “lar”. Não se pode dizer que ele estivesse decepcionado ou apavorado com o futuro próximo, mas certamente não se pode dizer que ele estava vivendo um gozo antecipado. A outra força, que poderíamos chamar de “aparente” , tentava fugir desses pensamentos e olhava a paisagem festiva e solene, a decoração, as faces das pessoas. Foi então, que uma luta surda começou a se travar dentro de sua cabeça. A força “de fundo” estava chamando a consciência exterior para uma conversa, uma discussão sobre o cenário que estava a se descortinar. A outra evitava o confronto porque sabia que não ia ser bom. Mais do que isso, agora era tarde, nada mais poderia ser feito. Por que, então, pensar no que já é quase um fato e que não tem mais jeito? “O que não tem solução, solucionado está”, não é assim que se diz?
A cena era a típica de um casamento.  Amigos, parentes e conhecidos distribuídos ao longo dos bancos. As mulheres, invariavelmente, conversavam baixinho, sussurravam, discretamente, como requeria o lugar. Apontavam coisas e objetos. Com um pouco de imaginação, quase era possível adivinhar-se do que falavam. Os homens, um pouco mais silenciosos, examinavam o teto, os altares laterais, ou simplesmente olhavam para o vazio. Só Deus sabe o que realmente pensavam.
De repente, Armando percebeu  o que todo mundo já tinha percebido. A noiva estava muito, muito, atrasada. Havia mais. Já se podia perceber uma movimentação extra no fundo da igreja. Algumas mensageiras chegavam, outras saíam. Era óbvio que alguma coisa estava no ar. Algumas donzelas estavam nervosas, outras disfarçavam um choro e outras, maldosas, mal podiam conter um ar de sadismo. Os homens, invariavelmente, fingiam que não tinham percebido nada. Uma atmosfera de constrangimento invadiu o sagrado recinto.
Todos já sabiam a essa altura que algo havia ocorrido. O “algo” também todos sabiam o que era, mas não ousavam falar. A noiva teve um ataque de pânico e desistiu na última hora.
Se você  pudesse ler a mente dos presentes, iria encontrar inúmeras e estranhas  “correntes” de pensamento. Um colega de trabalho estava pensando no dinheiro que gastou com o presente. Será que eles iriam devolver? Pedir de volta certamente era impensável. O outro lamentava a viagem que deixou de fazer para estar ali. Um amigo sincero se preocupava com o que iria acontecer com o Armando. E assim por diante. Provas cabais da mesquinharia humana poderiam ser recolhidas ali, se  alguém por acaso duvidasse de sua existência. Eu não vou falar das coisas que se passavam nas cabeças das mulheres, pois alguma leitora poderá pensar que tenho ideias machistas. Posso garantir, entretanto, que iam desde uma dor profunda, sincera, até um “bem feito, ela merece”...
E o noivo, o preocupado Armando, que até agora há pouco estava com aquela monstruosa batalha interior, de repente percebeu que poderia encerrar a disputa mental que estava ocorrendo. Para economizar tempo, vou direto ao ponto: estava tremendamente aliviado, como nunca estivera antes em sua vida. Claro que não poderia mostrar o que sentia por dentro... Por isso, naquele momento sua preocupação passou a ser outra: como coordenar aquela enorme sensação de surpresa e genuína felicidade pela libertação recém adquirida, com uma cara oficial – que teria de fazer para a ocasião – de tristeza e humilhação. Ele bem que tentou.
Se alguém tivesse tirado uma foto de seu rosto naquele exato momento, iria obter uma expressão facial nunca registrada antes. Ganharia fácil do ar misterioso do rosto de Monalisa. Sempre havia a possibilidade de se explicar aquele sorriso contido (Como é possível diante de tal tragédia?), como sendo consequência de um choque traumático. Tantos anos juntos, mais de um ano preparando o casamento e, de repente, os dois abruptamente fugindo de seu destino.
Armando e Márcia provavam mais vez que os corações humanos escondem segredos que nem o mais habilidoso psicólogo consegue penetrar. Ora bolas, quem consegue entender o ser humano?


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Tuesday, January 9, 2018

Capitu, a cachorrinha carente




Capitu, a cachorrinha carente

Estou dirigindo meu carro pelas ruas de Orlando e escuto a Rádio Bandeirantes local. Ouvir um pouco a voz da terra. Afinal eu ainda sou professor de Português e a gente acaba se esquecendo de palavras, expressões. Não só isso, estão sempre aparecendo novidades na língua. Na minha época de Brasil, por exemplo, não havia “socorrista”, “cadeirante”, por exemplo...
Daí uma apresentadora começa a responder a uma pergunta da ouvinte preocupada com sua cadelinha. Ela quer carinho o dia inteiro. Exige. Eu conheço este problema, pois em casa temos alguns, nem ouso dizer quantos. E eles estão sempre com as patinhas puxando a mão da gente quando o agrado para. A moça da rádio explica que não pode ser assim. Quem tem tempo de ficar o tempo todo fazendo carícias nos “pets”?  Precisa dar alguma atividade para ela, fazer algum exercício, deixá-la cansada. A atitude dela explica-se exatamente por isso, fica sem fazer nada o dia inteiro, só pensa em ser acariciada. Explicação bem equilibrada, profissional. No entanto, o que mais me impressionou, foi o nome da cadelinha. Nada mais, nada menos do que Capitu. Sem dúvida uma das minhas personagens preferidas entre tantas outras com as quais Machado de Assis nos presenteou.
Quase fiquei indignado, mas eu gosto muito de animais e além disso imediatamente achei que havia uma certa lógica. Lembrei-me imediatamente da misteriosa Capitu – a do Dom Casmurro – e me dei conta de que ela, de certa forma, também queria muito carinho. É bem verdade que ela foi além, lembra-se do que foi falado a respeito dela: "olhos de cigana oblíqua e dissimulada"?

Você que leu o livro, sabe. Ela foi muito, muito, além... Ou será que não?

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Sunday, January 7, 2018

Futebol e filosofia




Futebol e filosofia


Adoro futebol como quase todo mundo. Dia de jogo do meu time é dia de festa. Torço com tudo. Se meu time ganha, o que acontece muitas vezes, é só alegria.  Uma sensação gostosa invade meu ser. Se meu time perde, penso assim: “Há coisas mais importantes na vida. Futebol é apenas um detalhe.” Eu me consolo e continuo até a próxima vitória.
Quando meu time empata, entretanto, sinto uma sensação tola, idiota. Claro, existe o empate que é uma vitória, aquele que dá um título, mas isso não acontece todos os dias. Normalmente, o empate é um vazio, uma falta de realização. Nem sequer dá para filosofar sobre a vida, como disse antes, conformando-se com o fato de que “há coisas mais importantes”. É como ficar no meio, parado. Inútil, sem perspectiva.
Por outro lado, precisamos reconhecer, empatar é o que mais acontece no dia a dia. Em nossas lutas todas, em nossos grandes sonhos, não ficamos sempre pela metade?
Acho que empatar é o que mais fazemos durante toda a vida. Ainda bem que não é sempre zero a zero, pois isso, definitivamente, seria o cúmulo da chatice. Um aborrecimento sem fim.

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Saturday, January 6, 2018

Devolva-me


Devolva-me

Sozinho na sala de espera do consultório, vou navegando pelas músicas antigas do Brasil. Quem não tem uma crise nostálgica de vez em quando? Gosto mesmo é do Chico, do Gil e do Caetano. No entanto, de repente escuto aquela antiga canção primeiramente gravada por Leno e Lilian, desta vez executada por Adriana Calcanhotto, “Devolva-me”. Melodia gostosa, letra simples, mas bonita, deixo-me encantar por uns momentos.
De repente vejo que há uma moça sentada a meu lado. Sempre achei feio obrigar outras pessoas a ouvirem suas preferências musicais. Nesse caso, pior ainda, pois era alguém que não conhecia a nossa língua. Peço desculpas, coloco em pausa o meu fone. Imediatamente ela avisa:
-No, no, I like it!
Deixo então a sinfonia – isso mesmo, agora, ela já tinha mudado de categoria – correr. Até acho que ela é bonita mesmo. Assim que termina a “apresentação”, ela me pergunta o que significa.
Com o Inglês mais romântico que pude produzir, falo que é a história de alguém que rompeu com seu amor e agora lhe diz para rasgar as cartas de amor. E tem mais, se ainda tem o retrato que um dia – quando ainda eram apaixonados – lhe dera, que devolva. Daí o título da música: “Devolva-me”. Explico até que é um caso de dor de cotovelo, do melhor jeito que achei.
Paro então minha tradução com medo de estar me tornando piegas e até inconveniente. Olho para ela, mas ela está dizendo:
-No, no... It’s beautiful!
Aí, então, ouço meu nome, a assistente do médico me chama. Digo então “até mais” e entro no consultório. Eu seria capaz, entretanto, de jurar que seus olhos estavam lacrimejantes. Não, não pode ser...

O fato é que de vez em quando escuto de novo a canção, mas agora meus ouvidos são outros...

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