Thursday, December 7, 2017

Paixão teimosa


Paixão teimosa


Nós sempre nos amamos,
ora com doces palavras,
ora com um triste olhar,
e até mesmo com mágoa...
Misturamos nossas lágrimas
com sorrisos, duras frases,
com carinho, com ofensa,
mas sempre nos amamos...
Nossas almas são teimosas,
e sob qualquer circunstância,
continuam se apaixonando...

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 À  procura de Lucas


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Wednesday, December 6, 2017

A cama do Pires


A cama do Pires

(Reflexões sobre a leitura de “A Capital da Solidão” de Roberto Pompeu de Toledo)

A leitura de “A Capital da Solidão” é um gostoso exercício cultural. O livro nos pinta um interessante e delicioso quadro de como se formou a cidade de São Paulo, dentro do contexto do nosso país. Muita coisa pode se aprender desta leitura. Um dos episódios que me chamou bastante a atenção foi a história da cama de Gonçalo Pires, um carpinteiro e construtor. Segundo o relato do jornalista e autor do livro, Roberto Pompeu de Toledo, ele era o único dono de uma cama em toda região de São Paulo. Nossa cidade, agora colossal e de fazer inveja pela sua modernidade e riqueza, era por volta do ano 1620 – quando ocorreu esse episódio – bastante atrasada em relação às outras do Brasil. As litorâneas, como o Rio, tentavam imitar o estilo europeu e gozavam de um conforto relativo que se assemelhava às capitais europeias. Já a nossa estava muito mais próxima da categoria de uma aldeia indígena do que de uma metrópole. E isso era em tudo. Comíamos o que comiam os índios, falávamos mais a língua indígena do que o português e até as “esposas” eram indígenas: nada de mulher europeia por aqui. Não que elas fossem melhores do que as nossas índias. Dormia-se no chão, em catres e em “redes de carijós”, como se falava na época. E não pense que isso foi só então, que faz muito tempo. A cama só substituiu a rede no século XIX, ainda segundo o autor do livro. Pois bem, isso explicado, podemos entender melhor o que aconteceu a seguir. Amâncio Rebelo Coelho, “ouvidor-geral” da Repartição do Sul (Rio, Espírito Santo e São Paulo), uma espécie de enviado do governador-geral, e portanto autoridade oficial diretamente ligada à coroa portuguesa, precisava vir para a cidade para fazer sua ronda, ou sua fiscalização. Tão importante figura, com seus ossos moídos pela subida da serra do Mar – naquela época não havia nossas maravilhosas rodovias (e você ainda reclama do pedágio) – precisava de um móvel digno para descansar. Imediatamente pensaram na cama do Gonçalo Pires, proprietário exclusivo de tão importante bem. Mas o “empresário” não queria saber de conversa. Nem pensar em ceder a dita cuja. A Câmara não teve dúvidas, tomou a óbvia decisão: o móvel iria ser apreendido a bem do serviço público, entendendo-se por isso, o conforto do ilustre visitante. Uma força-tarefa foi enviada à casa do teimoso proprietário e não só a cama, como também o travesseiro e o seu lençol foram levados.
Depois da inspeção, o “ouvidor-geral” voltou para seus reais deveres e deixou para trás a provinciana São Paulo. A Câmara tratou de devolver o precioso móvel para seu legítimo dono. Este, ofendido e teimoso, recusou-se a receber de volta o item confiscado alegando estar danificado. Obviamente queria tirar alguma vantagem da situação. Onde se viu tal ato de vandalismo e abuso de poder por parte do governo? As autoridades decidiram chamar peritos que decidiram que a cama estava em bom estado e que a única impropriedade era a sujeira no lençol, que, então, foi lavado. Decidiram também pagar um aluguel pelo uso do bem para ver se o cidadão se acalmava e aceitava receber a mercadoria de volta. Que nada. Ele estava pensando em uma quantia muito, muito maior, de dinheiro, pelo precioso empréstimo forçado que tinha feito. A disputa demorou pelo menos mais sete anos e, infelizmente, os historiadores não descobriram o que aconteceu depois.
Temos aí, porém, um bom preâmbulo do que viria a ser nossa vida política e administrativa. O governo tentando tirar tudo à força do indivíduo e esse tentando tirar tudo do estado. E é óbvio, a burocracia. Perícia, discussões que não levam a nada, disputas que se prolongam e o ridículo sendo o tópico principal de tudo, ficando as coisas importantes completamente de lado.
Uma premonição.

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Tuesday, December 5, 2017

Mais um dia



Mais um dia


De manhã nós acordamos,
vemos o sol brilhando,
lembramos das alegrias,
de algumas tristezas...
Apostamos nas certezas,
duvidamos dos perigos,
acenamos para os sonhos,
fazemos os novos planos...
Colocamos tudo nas costas,  
vamos viver mais um dia,
como se ele fosse único...
mesmo sabendo, por dentro,
que é apenas mais um dia...

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Sunday, December 3, 2017

Nada para dizer


Nada para dizer


O sol declinava no horizonte...
Essa é do José de Alencar.
Mas que seja infinito enquanto dure.
Foi o Poetinha quem falou.
E o Drummond falou que no meio do caminho tinha uma pedra.
Ou foi, “tinha uma pedra no meio do caminho”?
Mas quem falou que “Viver é perigoso” foi o Guimarães Rosa e,  meu Deus, como ele tinha razão.
Estava pensando em dizer algo também. Mas quem sou eu para dizer alguma coisa? Além disso, se eu disser, não vai ter a menor importância...



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Paralelo 38 e outras histórias
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Thursday, November 30, 2017

Hermeto Pascoal e o Paradoxo Brasileiro




Hermeto Pascoal e o Paradoxo Brasileiro

Estava dirigindo esta manhã, quando de repente o locutor do rádio falou com seu sotaque americano o nome de Hermeto Pascoal. Meu coração deu uma leve acelerada, só de ouvir o nome de um brasileiro. E daí foi só uma sequência de elogios. Falaram de como ele é um gênio da música. Aliás, ele é o próprio espírito dela. Falaram de sua criatividade, de sua universalidade. De como em maio deste ano ele ganhou o título de doutor honorário do New England Conservatory. Citaram a história da famosa resposta que Miles Davis deu quando lhe perguntaram que tipo de instrumento ele gostaria de tocar quando voltasse em uma reencarnação. Davis disse: “Eu gostaria de ser um músico como aquele “albino doido”, referindo-se carinhosamente ao Hermeto.
Enchi o peito e me lembrei de tantos outros brasileiros geniais em todos os setores: ciência, música, arte, etc. Pensei também como a maioria dos brasileiros é gente boa, gentil, simpática. Tantas almas gostosas, leves, amigas. Mas, logo a seguir, pensei nos inúmeros idiotas que vemos na vida pública todos os dias. O que falam, o que fazem.
Cheguei à conclusão óbvia. Isto é um paradoxo. Talvez seja universal, mas este é o nosso paradoxo, o Paradoxo Brasileiro.


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Wednesday, November 29, 2017

A jornada do Euclides



A jornada do Euclides

Um dia, logo cedo, deu um nó na cabeça do Euclides. Explicação lógica não havia. Uma dessas coisas que não se espera, não se deseja, mas que, às vezes, acontece. Colocou sua roupa mais bonita, com gravata e tudo mais, e saiu, não sem antes dar um lustro bacana nos sapatos. Olhou para os dois lados e escolheu a esquerda. Só para contrariar. Foi andando de cabeça erguida, acenando para todos, dos dois lados. Ele, que sempre tinha sido um homem sério, circunspecto. Alguns, que o conheciam, ficavam chocados. Outros assustados ou admirados. Quem não conhecia, achava que era um louco, usando aquelas vestimentas elegantes em plena periferia. As pessoas mais simples achavam “legal” e acenavam de volta. Tinham certeza de que algo especial estava acontecendo. Talvez fosse um dia de festa e não avisaram. Talvez tivessem prorrogado o Carnaval. Ele foi andando, andando. Nunca mais voltou para casa. Foi vivendo de favores, comendo aqui e ali, tomando banho quando era possível. As roupas foram apodrecendo e ele ganhou outras, bem mais simples, de pessoas caridosas. O sorriso, ele nunca perdia, embora o seu corpo, agora, mostrasse cansaço. Meses depois, já tinha passado por inúmeras cidades.
Um dia chegou a uma cidade que, ironicamente, se chamava Felicidade. Era tarde da noite e ele sentou-se num dos bancos da praça principal. Depois, lentamente, foi se deitando.
De manhã, um funcionário da prefeitura, que cuidava da limpeza do parque, achou seu corpo inerte. No rosto, um suave sorriso de alegria. Uma suspeita, paradoxal, indefinida e estranha alegria.
Euclides, finalmente descansou.

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Tuesday, November 28, 2017

Cabelos finos



Cabelos finos

É manhã de um dia qualquer e os dois continuam na cama. São aposentados, têm o dia todo para si. Todos os dias são iguais. A Cecília, semiacordada, passa a mão na cabeça do marido querido e segura seus cabelos por um instante. Depois, quase rindo, faz um comentário:
-Estão finos, querido. Dizem mesmo que com a velhice eles vão se afinando.
-É verdade, meu amor.
Os dois dão uma risadinha sem graça. Faz-se então um silêncio e ficam parados pensando na vida.
Alguns minutos mais tarde, o Mário comenta:
-Dizem também que, quando vamos envelhecendo, temos muito sono, dormimos muito mais. Como as criancinhas...
A Cecília já está dormindo novamente, mas, mesmo assim, ainda responde:
-É verdade, meu amor, é verdade...
E os dois continuam dormindo com uma suavidade sem fim.


oVideo Trailer: À procura de Lucas

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