Saturday, February 17, 2018

Eles chegaram



Eles chegaram


Aconteceu o que ninguém imaginava. Um disco voador, daqueles modelos antigos, que nem se fazem mais, apareceu, todo batido, bem perto de Washington. Uma ousadia. Como é que, com todos esses radares, toda essa segurança, tão suspeito veículo ousou ali estacionar? Estacionar é um forte eufemismo. Na verdade, ele despencou, sem controle, bem no meio de uma rua. Sorte ou habilidade dos pilotos, o inédito engenho conseguiu se desviar das casas. Talvez tenham seguido algum código interestelar de conduta de emergência que respeita a privacidade dos inocentes terráqueos.
Mesmo naves quânticas, cósmicas, têm problemas de fechadura. O fato é que as portas não se abriam, se é que portas havia. Os homens do exército, e da polícia também, estavam ali todos armados, esperando os tripulantes saírem. Logo atrás, deputados e senadores, claro, não podiam perder tal oportunidade. E essa, você não vai acreditar. Um dos soldados, que tinha um resfriado, deu um espirro escandaloso. Daqueles que fazem você falar “saúde” mais por susto do que por educação. E não é que a nave se abriu? De uma maneira simples, lógica. Bem no topo, uma escotilha. Abriu, do jeito que a gente deveria esperar que ela se abrisse.
As armas estavam apontadas para lá. Devagar foram saindo as figuras. Um, dois, três. As formas eram humanas. A pele, entretanto, era como se fosse de crocodilo. Pularam lá de cima. Estranhamente não havia uma escadinha para que eles descessem. Isso é explicável. Certamente pensaram que não tivéssemos gravidade. Porque, certamente, seriedade não temos. Enfim, começaram a andar, lentamente. Foi aí que se notou que cambaleavam, como se fossem bêbados. Certamente estavam tontos com a queda. Foram colocados em um camburão para serem levados para interrogação. Enquanto isso,  especialistas entraram na nave. Uma bagunça, tudo revirado. Perceberam, entretanto, que havia garrafas abertas. Eles andaram bebendo, concluiu o chefe so grupo. Dá para reconhecer uma embalagem de bebida de longe. Pode ser de outro planeta, mas bebum  é bebum. O primeiro enigma estava resolvido. Aquele cambalear não era da queda, era do álcool. Que coisa. Fazer uma viagem cósmica e chegar bêbado num planeta atrasado como o nosso. Enfim, já havia uma desculpa para a detenção: “dirigir veículo automotivo em alta velocidade, com perigo para os transeuntes, sob o efeito de substância não permitida”.
Um advogado apareceu por lá. Resolveu trabalhar de graça, em troca da fama. Primeiro membro da Ordem a defender um extraterrestre. Isso devia contar para alguma coisa. O primeiro embargo que ele colocou foi a jurisdição. Aqueles indivíduos eram de outro planeta, não estavam sujeitos às nossas leis. O juiz falou: “parado aí”, aqui se trata de um problema de segurança.
Enquanto isso, na Casa Branca, estavam discutindo, como foi que a segurança havia sido comprometida. Um objeto vindo do espaço profundo sem ser detectado? Que segurança é essa? O professor de Física Quântica foi chamado e tirou de letra: Eles não vieram por uma rota do normal. Ele viajaram através de uma curva do tempo. Buraco de minhoca, nunca ouviram falar? E completou que estava mais preocupado com o fato de estarem bêbados do que com o fato de que tinham invadido nosso espaço aéreo. “ETs” bêbados, dizia ele, é uma contradição, uma coisa que tem probabilidade zero. Um paradoxo. Ainda assim, aconteceu. Essas coisas acontecem.
Todo mundo resolveu dormir, aquele foi um dia e tanto. Recolheram o disco para a área 51, puseram uma segurança danada e deixaram o resto para o dia seguinte. Eu sei que tem gente relacionando o fato de eles mandarem a nave espacial para a área 51 e o fato de eles estarem bêbados. Quem não conhece a famosa cachaça de Pirassununga com o mesmo nome, quero dizer, número? Não é uma boa ideia?
Paz no mundo, por enquanto. À noite, porém, a notícia vazou. Sempre vaza. A Internet, o Youtube, as redes sociais, e também as que não são tão sociáveis assim, ferveram. Fotos de todos os tipos. Crocodilo com cara de gente, buracos negros com crocodilos sumindo lá dentro, jacarés bebendo pinga, teorias de conspiração, invasão de seres de outros planetas, tudo que dá para imaginar.
Os extraterrestres, que conseguiam detectar as ondas de transmissão no ar, mesmo dentro da prisão de segurança máxima, viram que estavam  definitivamente famosos. Depois, porém, de examinar o conteúdo de toda aquela comunicação, chegaram à conclusão de que a ignorância era muito avançada.  Que não dava para ficar ali, de jeito nenhum. Um atraso cósmico. Só porque tinham bebido um pouco demais, não mereciam tal castigo. Usaram sua força mental, induziram os guardas a libertá-los, foram até a nave, fizeram uns consertos de emergência e pronto. Detectaram um buraco de minhoca e se mandaram. Aproveitaram uma curva do tempo, mesmo porque, por aqui, o tempo está sempre se curvando.
No outro dia, tudo tinha sumido. Aquelas fotos ridículas da Internet, mesmo as verdadeiras, eram obra de quem não tinha o que fazer. Tudo Photoshop, tudo mentira. Esse povo fica pondo besteira na rede o tempo inteiro.
Isso é falta do que fazer, não é mesmo?

oooo000oooo


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Tuesday, February 13, 2018

No meio da ponte



No meio da ponte

Há na minha vida uma ponte...
Do lado de cá estou eu,
vida árida, vida dura...
e do outro, estão meus sonhos,
esperando acontecer.
Volta e meia, fujo para lá
e com eles me inebrio.
Com toda essa ilusão,
porém, eu me assusto
e então preciso voltar.
Vida seca, vida rude,
do outro lado, os sonhos,
doidos a me tentar.
Vou, então até o meio da ponte,
paro e olho as águas,
suaves, calmas, a passar...
E é aí que resolvo,
bem no meio ficar:
nem muito cá, nem muito lá!





                                 oooo000oooo


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Sunday, February 11, 2018

Pequeno poema sobre meu infinito




Pequeno poema sobre meu infinito

Despojado de meus atos,
desatado de minhas ideias,
desalinhado de meu curso, 
desanimado dos sonhos,
desapontado com os limites,
desapegado das ilusões,
desenganado de tudo,
eu paro, penso e decido:
Vou mergulhar de vez,
no infinito de mim mesmo...


                                 oooo000oooo


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Thursday, February 8, 2018

Um delicioso sim?





Um delicioso sim?

Ah, o amor…
Tão difícil de se achar,
tão fácil de se perder,
tão bom de se saborear,  
tão gostoso de se fazer,
tão bravo, de se admirar,
tão doido para se entender,
tão lindo de se ver chegar,
tão triste de se ver morrer...
Por que você é assim?
Às vezes um doloroso não,
outras um delicioso sim?
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Saturday, February 3, 2018

A sociedade “Neptune”, o Maluf, e o Cemitério de Perus



A sociedade “Neptune”, o Maluf, e o Cemitério de Perus


Não é a primeira vez que recebo uma carta da “Neptune Society”.  Eles são especializados em nada mais, nada menos, do que cremação.  Na carta anterior, eles me garantiam que era um excelente negócio pagar antecipadamente pela incineração deste pobre e cansado corpo. Delicadamente, rejeitei a proposta através de uma crônica chamada “Cinzas, Cinzas”. Usei vários argumentos e, entre eles, um muito otimista: de que poderia viver muito tempo e não fazia sentido antecipar-me desta forma. Já pensou se eu vivo mais 30 anos? Sei que é um otimismo exagerado, mas, nesse caso, pode ser até que a tal da funerária não exista mais na ocasião e esse teria sido um péssimo investimento.
Dessa vez eles apelaram até para a ecologia. O enterro comum afeta o meio ambiente muito mais do que simples cinzas. Entre outros fatores, ocupa um espaço muito maior. Segundo eles, é também muito mais fácil planejar as coisas com a família e tudo mais. Extremamente conveniente, dizem eles, além de muito mais barato. Não existe o perigo de ficarem tentando “enfiar coisas” a mais, como um espetacular buquê de flores, numa hora em que estamos fragilizadas pela perda da pessoa amada e os arranjos para um enterro tradicional. Devo reconhecer que eles são bons de marketing.
É uma pena que eles não fizeram essa oferta há algumas décadas atás. Eu certamente não iria aceitar, mas poderia indicar o Maluf, na época em que ele era prefeito de São Paulo. O famoso político tentou, então, comprar um crematório de uma firma inglesa. Seria nobre se não fosse pelo objetivo: queimar os corpos dos presos políticos do cemitério de Perus para que não fossem identificados. Os ingleses disseram que vendiam “crematórios e não incineradores”. Não sei por que desconfiaram das nobres intenções do Paulo. Besteira, um homem público tão nobre como ele! De qualquer jeito, a “Neptune Society”, aqui da Flórida, por mais ávidos por dinheiro que sejam, não iriam aceitar a proposta do prefeito. Certamente ele iria propor comprar pelo dobro do preço, para que eles devolvessem a parte dele numa conta em algum lugar do planeta. Tenho certeza de que eles não “topariam”. A firma americana não iria querer ser “fritada” pelo Imposto de Renda americano, embora “fritar” e “cremar” pertençam ao mesmo campo semântico.
De qualquer jeito, a oferta da “Neptune” está em pé. Além do mais, estão dando um bom desconto. Se alguém estiver interessado, tenho aqui até o código do mesmo: NJPUR22. Acho que é transferível. Não precisam dizer que fui eu que indiquei, não. Não estou interessado em ganhar comissões desse tipo. Ah, estava me esquecendo do “slogan”deles: “Simples, econômico e digno... Simplesmente faz sentido”
Faz sentido, não faz?

P.S.
1.) A Neptune Society enviou um cupom para ser preenchido. Se você for sorteado, ganha uma cremação grátis ( é sério, não é gozação)

2.Uma bela frase da Eleanor Roosevelt vem escrita no folheto:

“Yesterday is history, tomorrow is a mystery, and today is a gift: that’s why they call it a present.” – Eles podem estar querendo me queimar, mas que sabem escrever bonito, eles sabem…

Tuesday, January 30, 2018

Deu um branco




Deu um branco

Deu um branco. Já aconteceu com qualquer um de nós. É verdade que, com a idade, a ausência de cor, vai, pouco a pouco, sendo a dominante. Existem, porém, doenças e acidentes que podem deletar tudo, mesmo numa tenra idade. O que é uma mente sem lembrança nenhuma? Não sabemos, não dá para saber. Talvez seja a própria pureza, talvez seja uma forma de infinito, onde o tempo e o espaço não se contam. Talvez seja, finalmente, o encontro com Deus. Talvez não seja nada, nada mesmo, como se tivéssemos morrido.
É por isso que gosto de escrever. Se o vazio invadir meu cérebro, se tudo for deletado e minhas sinapses entrarem em colapso, tenho esse consolo. O que fui, o que deixei de ser, vai estar escrito por aí, em algum lugar. Nem que não houver ninguém lendo, ainda assim, isto vai ser parte de mim. Sim, isto vai ser o meu espírito, rudimentar, escrito em prosa e verso, pairando em forma de perdidas palavras, pelo ar, para quem quiser ouvir...


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Friday, January 26, 2018

A história de Clotilda

 


A história de Clotilda

Em um ano começaria a Guerra Civil nos EUA, mas desde 1808 já era proibido trazer escravos da África. A escravidão, no entanto, durou até dezembro de 1865, logo depois de terminar o confronto entre o sul e o norte do país.
Apesar da proibição, Timothy Meaher, um negociante do Alabama na época, quis provar que ele era capaz de burlar a lei. Junto com alguns investidores, enviou um navio para o oeste da África. No reino de Whydah efetuaram a compra de mais de 100 escravos e voltaram para a América com a preciosa “carga”. Quando estavam chegando perto da cidade de Mobile, no entanto, perceberam que seriam facilmente detectados e perseguidos pelas autoridades. Agiram rapidamente. Depois de atearem fogo àquela embarcação, transferiram os escravos para outra menor. O que restou desapareceu nas lamacentas águas do delta. Timothy ficou com 30 dos homens e entregou os outros para os que tinham investido nessa triste empreitada.
Alguns anos depois terminou a guerra e junto com ela, a escravidão. Aqueles pobres seres que haviam sido trazidos do outro lado do mar contra sua vontade, agora estavam livres. Um grupo deles solicitou ao governo americano que eles fossem levados de volta para sua terra, mas isso foi negado. Compraram então uma área de terreno e formaram uma comunidade chamada Africatown. Outros, que haviam se separado, começaram a voltar também para se unirem aos companheiros da terrível jornada. Africatown existe até hoje e lá residem seus descendentes. Tentaram conservar suas tradições, sua língua. Mais tarde alguns se converteram ao Cristianismo.
Há algumas semanas trás, um repórter do Alabama parece ter encontrado os restos da escuna que fora então incendiada. Possivelmente um ciclone conhecido como “ciclone-bomba” desenterrou o que havia sobrado.
O nome dessa escuna era Clotilda e foi o último navio negreiro a desembarcar na América.

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